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Crónicas do DNA 1

OS EDITORES SÃO PAGOS PARA LER...

O título geral destas crónicas é uma descarada herança de mim próprio. Ofereceu-mo o Vítor Silva Tavares, nos tempos do nosso velho Suplemento Literário do Diário de Lisboa, há já perto de trinta anos. Usei-o, nesse tempo, ao longo de muitas semanas, aí e na revista do & Etc., para com alguma irreverência falar de livros e de escritores, da crítica e da literatura, temas que sempre me interessaram.
Volto a ele agora para tentar falar de livros sob o ponto de vista da edição.
No fundo, para falar da mesma coisa.
Em trinta anos muita coisa mudou; eu próprio mudei de um espaço para o outro: da escrita ou do comentário sobre as suas formas de elaboração, para o espaço não menos fascinante da edição e da leitura.
Só o objecto destes textos não mudou: os livros, essa paixão que afinal preenche a vida de alguns de nós.
Em todos os países há quem escreva sobre questões relacionadas com a edição e os editores. Em Portugal, não. Escreve-se sobre a política e os partidos (demasiado), sobre culinária, sobre educação sexual, sobre a televisão e os outros media, sobre os hábitos e costumes dos colunáveis, sobre a globalização, ou sobre tudo isto ao mesmo tempo. Há até quem escreva pelo puro exercício da má-língua, para ajustar contas com a vida. Mas sobre a edição, os editores, o papel dos livros na nossa vida, as histórias de escritores que ficam sempre por contar, na verdade não há.
Tentemos – ... a ver como funciona.
Nós, os editores, temos uma profissão privilegiada: pagam-nos para ler. Pagam-nos para que seleccionemos livros e manuscritos, para nos deliciarmos com a literatura que se vai fazendo por esse mundo, para convivermos e aprendermos com os nossos autores, pagam-nos ainda para que viajemos, relacionando-nos com outras pessoas que também são pagos para ler, que também se apaixonam por livros que depois tentam dar a ler a outras pessoas (refiro-me evidentemente aos leitores) que, essas, para sua desgraça, são pagas para executar, creio eu, aborrecidas e enfadonhas tarefas...
Os políticos, por exemplo – querem actividade mais maçadora? Por isso apreciam tanto mostrar-se e aproximar-se dos literatos...
Os editores têm hoje – diz-se – uma profissão altamente especializada. Como diria o meu amigo e editor Carlos Araújo (Terramar), todos eles são especialistas em ideias gerais... Lêem tudo, desde a chamada grande literatura, à filosofia, à botânica, à genética, à astronomia, às ciências ocultas, aos intermináveis e sempre iguais manuais de sexologia. Ler é a sua missão no mundo. E mais: sobre cada leitura têm de ter uma opinião. Para isso lhes pagam. Há quem diga que bem...
É vê-los transportando consigo pilhas de livros que levam para a praia, para a tranquilidade da serra, para os momentos livres das viagens internacionais, dos concertos e das visitas aos museus, para as esplanadas da província onde têm as suas casas de fim de semana adquiridas com os frutos (quero dizer economias) das suas muitas leituras acumuladas.
Estou daqui a ver o meu amigo Carlos Veiga Ferreira (Teorema) partindo para os Açores com uma mala cheia dos seus futuros autores espanhóis, a quem tem dedicado especial atenção e muito trabalho de divulgação. E tem razão. Porque provavelmente a literatura espanhola é hoje uma das mais interessantes literaturas europeias, cheia de bons escritores que permanentemente nos surpreendem.
Ou o Manuel Alberto Valente (Asa), preguiçosamente sentado no quintal da sua casa minhota, tentando seleccionar novos autores sul-americanos, prosseguindo um trabalho de divulgação dessas literaturas e dos seus novos autores que só ele faz melhor do que todos nós. No exílio ou não, os novos autores sul-americanos continuam a ser a boa surpresa que sempre foram.
Ou o nosso jovem e irrequieto colega Gonçalo Bulhosa (Oficina do Livro), carregado de manuscritos de também novos escritores, cheios de ambições e expectativas, cada um deles espreitando à sua maneira os primeiros passos para o Nobel. Este ano, por exemplo, durante o Verão, o Gonçalo surpreendeu a Quinta do Lago, com um avião que mandava os colunáveis ler na praia. Bom esforço...
Mais tranquilo, afastado destas preocupações promocionais, fumando o seu cachimbo como quem não tem nada a ver com estas pequenas guerras, o Zeferino Coelho (Caminho) limitar-se-á certamente a trazer consigo, para uma leitura final, o próximo romance do Nobel verdadeiro.
E há ainda o Francisco Vale (Relógio d’Agua), a Rosário Pedreira (Temas e Debates), a Piedade Ferreira (Gótica), a Guilhermina Gomes (Circulo de Leitores) enchendo de livros e manuscritos os cantos dos seus espaços de leitura, tirando apontamentos, sublinhando, fazendo relatórios. Eles não param de ler.
E isto para falar apenas de alguns dos editores que lêem os livros que publicam, ou seja, de uma espécie hoje quase em extinção. Os tais felizardos a quem as suas companhias pagam para que eles usufruam dos prazeres que só a leitura ininterrupta pode dar. Porque agora há também os outros. Os que são pagos para ler as listas de best-sellers, as criticas literárias e as entrevistas dos autores, os índices dos mais vendidos, os livros que tiveram prémios ou “vão dar” filmes, ou para descobrir entre as raparigas das televisões as que sejam no mínimo capazes de fazer o esboço de uma história que depois um jornalista contratado corrigirá anonimamente.
Vem aí a rentrée, preparem-se.
Os editores estarão de volta, o mercado será inundado de centenas de novos livros e de novos autores.
O livro está na moda.
Mas não esqueçam: um mau livro nunca é responsabilidade de um mau escritor; mas de um mau editor que decidiu publicá-lo – dizia o meu velho amigo e editor Mário Muchnik.
Leiam, apesar de todas as ironias. Vale a pena ler.
Que os editores, esses, não tiveram férias preparando as surpresas deste final de ano.

(Publicado no DNA de 19.10.2002)


ALGUMAS INTERROGAÇÕES AVULSAS
(PRÓPRIAS E ALHEIAS)
SOBRE A INDUSTRIA EDITORIAL

No último número da revista Que Leer (Março de 2003) alguém perguntava com razão: “Num país saturado de livros, em que as novidades se contam por milhares, resulta paradoxal que, com frequência, os alunos das universidades não encontrem os títulos que lhes prescrevem os seus professores e tenham de recorrer a fotocópias. Publica-se muito… mas por onde andam os livros importantes?”
*
Nos armazéns das editoras? Sujeitos a encomendas pontuais dos livreiros porque não cabem nos seus espaços de exposição?
*
Ou o “não temos, está esgotado no editor” passou a ser a resposta mais cómoda para aqueles livreiros que não querem incomodar-se a servir convenientemente os seus próprios clientes?
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Os livros converteram-se em produtos de rápida caducidade, perdendo o seu interesse comercial se não são renovados ou substituídos rapidamente, como os iogurtes. A estratégia comercial deveria ajustar-se ao produto, e não o produto à estratégia comercial (José Maria Micó).
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As livrarias transformaram-se em hotéis para uma noite. Nunca foi tão alto o índice de mortandade dos livros recém-nascidos (Idem).
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Uma livraria consegue expor, em média, de rosto para cima, nas suas bancadas, entre 200 a 250 livros, em função da sua área de exposição.
Em Portugal, mensalmente, chegam às livrarias mais de 600 títulos novos.
Quanto tempo dura actualmente a exposição de um livro nas livrarias, com o objectivo de chamar para ele a atenção dos seus leitores eventuais?
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Ou quanto tem de pagar um editor para que um livro permaneça exposto por mais tempo na bancada de uma livraria? E nas montras? E junto à Caixa ou outros lugares de destaque?
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E nos expositores das grandes superfícies?
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E para ser colocado nos chamados tops de vendas?
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Para além das despesas de logística (tudo o que envolve o transporte de um livro do armazém da editora até ao lugar onde vai ser vendido), quanto tem de pagar um editor pelo acto voluntário de aquisição de um livro por um seu leitor? 30% do preço de venda ao público? 35%?, 40%?, 45%?, 50%...?
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Consideram os livreiros que estes valores são insuficientes relativamente ao tipo de serviço prestado? Admitiriam os consumidores que os retalhistas lhes cobrassem valores similares pela aquisição de outros produtos? 40% a mais por uma alface, uma cenoura, um pepino... que sou eu que escolho e coloco no meu cabaz de compras?
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E quanto tempo demora um livreiro a entregar ao editor o dinheiro recebido de um leitor no acto de aquisição de um livro? Noventa dias? Cento e vinte dias? Mais?
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E a devolver ao editor um livro de fraca rotação? Trinta dias? Quinze dias?
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Actualmente fala-se mais de produtos e conteúdos, do que de livros (Valerie Milles).
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Os agentes literários internacionais já não representam autores, mas apenas produtos. Actualmente, nem os que compram, nem os que vendem, conhecem a realidade desses produtos (Javier Aparício). No mundo da edição cada vez menos os editores, ou os agentes, lêem os livros que comercializam.
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O conceito de exportação tenderá a desaparecer. Com a instabilidade das moedas de alguns países não se pode pensar em exportações (Miquel Alzueta). O importador recebe em dólares os livros enviados pelo editor. Converte o dólar na moeda local para colocar o livro à venda no seu país. Quando recebe o produto dessa venda, a moeda local, convertida de novo em dólar, já não é suficiente para pagar a factura do editor.
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Para um jornalista cultural, falar de um filme, de um disco, de um espectáculo, descrever o seu conteúdo, indicar quem o produziu, quais os seus intervenientes, quanto custa, onde está à venda, etc. é um imprescindível acto de informação perante os seus leitores. Dizer tudo isto de um livro é um favor muito especial que se faz ao editor ou ao autor.
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Se, simbolicamente, um livro custar 1 euro a ser fabricado, se a produção de novidades em Portugal ultrapassar os 10.000 títulos anuais, se de cada título o editor oferecer em média 200 exemplares aos meios de comunicação social, instituições oficiais, depósito legal, etc. – quanto gasta por ano a industria editorial portuguesa para minimamente tentar divulgar a sua actividade? Quatrocentos milhões de escudos. Sem contar com as despesas de envio...
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E quanto pode obter em contrapartida? Um texto semanal, por editora, num órgão de comunicação social? Menos? E aquisições das Bibliotecas Públicas? E das escolares?
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Podem os jornais ligados a editoras e a redes de livrarias organizar com seriedade um top de vendas? E as redes de livrarias ligadas a editoras? Qual a seriedade global dos tops de vendas de livros existentes no nosso país em termos de orientação dos leitores menos informados?
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Que rigor possuem as outras estatísticas oficiais sobre o sector do livro? E quanto gasta o Estado, anualmente, com a sua preparação? Trinta milhões de escudos.
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Que impostos arrecada o Estado com a industria editorial portuguesa? Se as vendas do sector se aproximam dos 500 milhões de euros, quanto representam os 5% de IVA que cada leitor entrega ao Estado no acto de compra de cada livro? 25 milhões de euros.
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E o IRC pago pelas empresas editoriais? E o IRS pago pelos mais de 3.000 trabalhadores do sector, pelos autores, tradutores, desenhadores, fotógrafos, revisores, etc.? E os impostos pagos por todas as áreas adjacentes, industria gráfica e de papel, livreiros, transportadores, armazenistas, distribuidores?
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E que parcela destes impostos é revertida para iniciativas culturais, fomento da leitura, aquisições pelas Bibliotecas Públicas, representação cultural externa, etc? Para o próprio orçamento do Ministério da Cultura ou do Instituto do Livro, em apoio e dinamização do sector?
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O que é o IVA sobre os livros senão um injusto imposto sobre a leitura? Pode um país com tão baixos índices de leitura “castigar” aqueles que lêem? Pode um país tão necessitado de desenvolvimento castigar deste modo quem procura informar-se, formar-se, aceder ao conhecimento e à cultura? Pode um país sem verbas para aquisição de livros através das suas poucas Bibliotecas Públicas, encarecer ainda mais essa aquisição pelas que existem?
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O livro não é um produto cultural que interesse a comunicação, a rádio, os jornais, as revistas, as televisões, as promessas eleitorais dos partidos, as políticas culturais dos governos. No entanto não há nenhum político que não corra para ficar na fotografia quando um escritor português é premiado lá fora. Os autores portugueses têm feito bastante mais pela dignificação da imagem externa do país do que muitos políticos desajeitados.
*
Um livro não demonstra a sua qualidade através do seu volume de vendas. Sempre houve livros importantes que venderam pouco. Mas também não devemos desprezar os livros que se tornam mediáticos e populares, como hoje dizemos. Porque eles tiveram, no mínimo, a qualidade de saber ir ao encontro de novos leitores. E há que fazer com que a leitura compita com as outras formas de utilização do tempo.
*
Ser editor é criar um catálogo (Jorge Herralde). Uma editora que não reimprima sistematicamente o seu catálogo, não tem futuro (Enrique Folch).
*
O livro terá que transformar-se, pouco a pouco, num objecto comum da nossa vida quotidiana.

(Publicado no DNA de 26.04.2003)


RUY BELO

Nessa noite, final dos anos sessenta, encontrei o Ruy Belo passeando pelo Parque Mayer.
Esse mesmo.
Ali no centro de Lisboa, na Avenida da Liberdade, onde hoje parece que pretendem construir um Casino.
Máquinas, panos verdes, fichas de plástico coloridas, ruído de moedas, copos, luzes e fumo, generosos decotes, laços pretos ao pescoço, carros de luxo insistindo em estacionar.
Eu estava a jantar no “Chico Carreira” com o Vítor Silva Tavares e o pintor Carlos Ferreiro, o que fazíamos com frequência às quartas feiras, depois de fecharmos as páginas finais do suplemento literário do Diário de Lisboa, de que tínhamos então a responsabilidade de coordenação.
O “Chico Carreira” era um lugar de culto, comia-se bem, havia bons vinhos na garrafeira, largos espaços que permitiam conversas secretas, encontravam-se os amigos sem necessidade de avisos prévios.
Ao lado, noutras mesas, era possível ver com frequência o José Cardoso Pires, o Alexandre O’Neill, o José Fonseca e Costa, o Sttau Monteiro, o Sebastião Rodrigues, o Vespeira, o Solnado.
O Parque Mayer, por esses anos, era um lugar de concentração de gente do teatro e do cinema, escritores, pintores, actores, jornalistas, que encontravam dentro do seu espaço um lugar privilegiado de convívio.
Agora parece que vai ser um lugar turístico, Casino, hotéis de luxo, putas finas, internacionalistas.
Nesse tempo havia apenas os artistas e as suas “moscas”.
As “moscas” eram os pides que sorrateiramente se vinham sentar nas mesas ao lado, sozinhos ou em grupo, espreitando pelo canto do olho, de ouvido em riste para as nossas conversas que, valha a verdade, eram frequentemente inofensivas relativamente ao que lhes interessava. Mas eles não desistiam. Por ali ficavam, ruminando a costeleta, desviando os olhos quando os encarávamos, ouvidos atentos à conspiração que imaginavam.
Cumpriam a sua tarefa, faziam o relatório, concluíam certamente que os intelectuais eram gente inofensiva, vá lá a gente entendê-los.
O Ruy chegou no fim do jantar, vagaroso, uns livros debaixo do braço, já não me lembro quem o acompanhava.
Sentou-se connosco, falámos certamente de politica, dos jornais, poesia, critica, creio que por essa altura ele teria já publicado o seu Homem de Palavra(s)

Neste país sem olhos e sem boca
Hábito dos rios castanheiros costumados
País palavra húmida e translúcida
(...)

que ainda hoje continua a ser um dos mais motivadores livros da poesia portuguesa contemporânea, um livro para mim “de cabeceira”, como outros da sua tão importante obra poética, agora felizmente reunida num só volume pela editora Assírio & Alvim

Eu vinha para a vida e dão-me dias
(...)

O Ruy falava baixo, com uma voz doce que parecia que lhe vinha de dentro, procurando normalmente temas sérios, que verdadeiramente o motivassem. Mas também sabia divertir-se, gostava de rir e de brincar, às vezes parecendo um miúdo de calções. Como nós.
Depois do jantar saímos do restaurante para jogar matraquilhos. Um Benfica-Sporting fundamental. Acompanhado com as nossas gargalhadas, os nossos comentários em voz alta, como quem se sente em casa, brincando no quintal.
O Parque Mayer era assim, nessa altura, um lugar de encontro e de divertimento, um espaço onde Lisboa nos escondia do mundo, nos acolhia, soltos, no meio das putas velhas e dos pides.
Agora parece que lhe querem dar a luminosidade de um Casino, uma espécie de Las Vegas saloia, ali a meio da Avenida da Liberdade.
Ruy Belo gostava de futebol, o que nessa altura era uma singularidade num poeta. Hoje não. Hoje os intelectuais gostam de mostrar naturalidade e informação quando abordam a questão do Jardel, do Vilarinho, do Vale Azevedo ou do Madaíl. Há até quem escreva e publique livros sobre estes assuntos. Blocos de notas, biografias, relatos sentimentais. Nessa altura não. Encontrar poetas a falar de futebol não era de facto muito bem visto. O futebol era como o fado, uma apropriação da propaganda da ditadura. Tinha de se falar dele com distanciamento, com cautela, sem mostrar entusiasmo.
Mas nós não. Jogámos aos matraquilhos toda a noite, divertidos, um Benfica-Sporting fundamental. No Parque Mayer.
O lugar onde, parece, querem agora construir um Casino no meio de teatros e de hotéis, ali a meio da Avenida da Liberdade.
Acabou-se o jogo-ficção. Acabou-se o convívio e o entretenimento. Esperam-se as luzes da realidade, o ruído das máquinas e o cair das moedas verdadeiras. Euros...valha-os Deus.
Na manhã seguinte, para surpresa de todos, o Ruy publicava no jornal “A Bola” (29.04.72) um relato entusiasmado e vibrante desse nosso jogo fundamental. Descrevia-o com minúcia como se faria de um jogo verdadeiro. Os remates certeiros do Vítor Silva Tavares, as minhas defesas no limite, as fintas, os golos. Ganhara o Benfica, claro.
O Poeta escrevia num jornal desportivo o relato desse jogo-ficção que nos enchera as horas de convívio, enquanto a conversa deambulava por outros temas.
No Parque Mayer.
O lugar onde, parece, querem agora construir um Casino no centro da cidade. Nas costas da cidade.

Seria outra manhã esta manhã
Se sentado num banco eu que sentado penso
Se eu que aqui me sento aqui me sinto
Mais à margem da vida do que à beira da avenida
(...)

Os actores aprovam e agradecem aos poderes públicos, constroem manifestações de regozijo na televisão, beijam as mãos a quem lhes promete novas oportunidades de trabalho.
Veremos que teatro vai florescer de mãos dadas com o espaço de um Casino.
Nós, claro, iremos jogar matraquilhos para outro lado.
Com o Ruy.

(Publicado no DNA de 30.11.2002)


GIANGIACOMO FELTRINELLI

“De vez em quando, por aquilo que escrevem, os meus autores provocam
a ira dos seus governos; enquanto editor, é meu dever fazer o possível
para garantir a sua liberdade e fazer com que sejam ouvidos.”
G.Feltrinelli, carta a Lyndon B. Johnson

Não é usual que se publiquem livros sobre a vida dos editores.
Em Portugal, pelo menos.
Os editores são uns personagens malquistos, com uma actividade pouco considerada, incluindo, a maior parte das vezes, pelos seus próprios autores. A sociedade não os respeita enquanto agentes de divulgação da cultura, como seria merecido que o fizesse, os poderes públicos pagam-lhes normalmente na mesma moeda, ignorando o seu trabalho. Os autores também, vendo neles meros comerciantes de livros, exploradores dos seus direitos.
Garcia Marquez, por exemplo, referiu-se-lhes nestes termos: ”a los editores yo los mando tranquila y dulcemente al carajo. Son una verdadera plaga (...) todos los editores son ricos y todos los escritores son pobres.” - o que não reflectindo hoje o seu caso pessoal, é uma simplificação que só fica mal a quem a usa.
Ao contrário, dizia-se que De Gaulle ou Mitterrand recebiam mais prontamente os seus editores que qualquer dos seus ministros.
É um facto que alguns editores são merecedores desse pouco respeito que a sociedade lhes devota, fazendo da sua profissão um mero comércio convencional, enganando os autores com quem trabalham e neles depositam confiança. Outros, porém, são personagens interessantíssimos, homens de imaginação e de cultura, com vidas dedicadas à paixão pelos livros e à divulgação dos seus autores, fazendo deles verdadeiros cúmplices dessa paixão.
Mesmo em Portugal.
José Cardoso Pires, por exemplo, costumava interrogar-se sobre o que seria de muitos escritores e até de uma grande parte da literatura portuguesa, durante o período da ditadura, se não fosse a coragem e o atrevimento de muitos editores que continuaram a publicar livros que, em seguida, eram invariavelmente apreendidos pela policia politica do regime.
Portugal teve editores notáveis que dá gosto recordar: Manuel Rodrigues de Oliveira (Cosmos), Eduardo Salgueiro (Inquérito), Américo Fraga Lamares (Civilização), Sousa Pinto (Livros do Brasil), João Sá da Costa (Sá da Costa), Luís Montalvor (Ática), Nataniel Costa (Estúdios Cor), Figueiredo Magalhães (Ulisseia, revista Almanaque), Manuel Dias de Carvalho (Arcádia e Circulo de Leitores), Francisco Lyon de Castro (Europa-América), Rogério de Moura (Gleba, Livros Horizonte), etc., alguns felizmente ainda hoje activos.
Devemos-lhes muitos e bons livros, uma enorme tenacidade e imaginação, devemos-lhes a divulgação e o apoio a muitos autores, devemos-lhes a animação de um espaço cultural que, sem as suas iniciativas, teria sido sem dúvida muito mais pobre.
Isto a inteligentsia cultural reconhece mal, confundindo o trigo e o joio, os bons e os maus editores, os que respeitam e os que não respeitam os mais nobres objectivos da sua profissão, não reconhecendo no editor o parceiro de aventura que na verdade é.
O que “a cultura europeia precisa, neste momento, é de editores capazes de fazer bem o seu oficio” - disse-o Carlo Feltrinelli, autor da biografia de seu pai, o editor Giangiacomo Feltrinelli, “Senior Service”, publicada recentemente pela Âmbar, com uma tradução que se percebe apaixonada (tantas são as úteis notas acrescentadas) de Simonetta Neto.
É um livro de 500 páginas, bem editado, arrojado, fascinante e de leitura mais do que interessante – e creio que não apenas para os profissionais. Retrato da Itália do fascismo e dos sinuosos compromissos do pós-guerra.
Feltrinelli foi um homem e um editor fora do comum, levando essa singularidade até à morte, em 1972, no fim de um longo período de clandestinidade, abandonado em plena via publica, rodeado de explosivos, deixando sobre a sua vida um enigma que ainda hoje não está suficientemente clarificado.
A sua actividade editorial foi desde o início um projecto empenhado e activo, apoiando financeiramente em 1951 o editor Giulio Eunaudi (o filho comunista do então Presidente italiano) na consolidação da sua editora, até à constituição, em 1954, da sua própria empresa, a “Giangiacomo Feltrinelli Editore”.
Ficou célebre, por esses tempos, a primeira publicação no ocidente do “Jivago”, de Boris Pasternak (1957), contra todas as pressões dos soviéticos e dos partidos comunistas ocidentais, nomeadamente o italiano, de que Feltrinelli, à data, ainda era membro activo, a primeira tradução europeia dos “Cem Anos de Solidão”, de Garcia Marquez (1968), ou a publicação de “O Leopardo”, de Lampedusa (1958), que viria a atingir em Itália mais de 170 edições, com a ajuda, em 1962, do célebre filme de Luchino Visconti.
Herdeiro de uma das mais ricas e influentes famílias italianas, membro activo do PCI e um dos seus principais financiadores no tempo de Togliatti, fundador de uma editora, de uma vasta e original rede de livrarias (actualmente 62 postos de venda de livros espalhados por toda a Itália), de uma distribuidora, de vários projectos jornalísticos e revistas literárias, acaba envolvido, nos anos 70, com grupos de acção armada (GAP, Brigadas Vermelhas), passa à clandestinidade e aparece morto em circunstâncias estranhas e nunca devidamente explicadas.
A mesma permanente inquietação que atravessou a sua vida trouxe-a para os livros, publicando Borges, Astúrias, Ernesto Sábato, Carlos Fuentes, Yourcenar, Eco, Guimarães Rosa, Lévi-Strauss, Vargas Llosa ou Henry Miller. Um editor é um veículo de mensagens, dizia. O livro é o que (...) perdura depois de acabados os ruídos não essenciais.
Mas Feltrinelli não quis apenas provocar o mundo (a Itália dos pós-guerra) através dos livros e autores que publicava. Fê-lo também através da sua vida e da sua acção. Da sua intervenção directa sobre a sociedade do seu tempo, à qual entregou, entre tantas outras coisas, a sua própria vida.
Trinta anos passados sobre a sua morte solitária e enigmática, o seu catálogo permanece vivo, os seus autores continuam a publicar-se, a reimprimir-se, a serem lidos pelas novas gerações, a inquietar, a provocar, continuando a criar os secretos laços que nos tecem o mundo e a imaginação.
É isto um editor, um construtor de mensagens, como ele mais gostava de dizer, aquele que estabelece a ligação entre o universo invisível dos seus autores, provocando a realidade futura dos seus leitores.
Os livros não são coisas pontuais.

(Publicado no DNA de 11.01.2003)



JOSÉ CARDOSO PIRES

“a pior desgraça dum bebedor é deixar o copo a meio”
in A Cavalo no Diabo

Sempre tive dificuldade em entender os editores que não têm na relação com os seus autores a parcela mais importante do seu trabalho. Por mim sempre tentei fazer o contrário, iniciando relações profissionais que invariavelmente acabaram em estreitas relações de amizade. Não faz para mim qualquer sentido que o trabalho de um editor não se dirija em primeiro lugar à cumplicidade e à solidariedade com os seus autores.
Sei que há editores que procedem de modo inverso, ocupando a sua vida a ver catálogos, a ler informações sobre livros, a folhear revistas literárias, a consultar listas de best-sellers, a contactar com agentes, a comprar direitos a editores estrangeiros, escolhendo livros ou seleccionando manuscritos de que não conhecem os autores.
Por mim procuro sempre começar pelos autores.
Mesmo a intermediação dos Agentes, que com o evoluir dos tempos se tornou inevitável e imprescindível, sempre me deixou algo perplexo, apesar das estreitas relações que mantenho com a maior parte deles. Não sei como começou esta profissão, ignoro quem foi o primeiro agente a iniciar a sua actividade de representação, ou o primeiro escritor a fazer depender dela a sua relação com os seus editores. O primeiro contacto que tive com esta profissão, lembro-me bem, era ainda criança, foi através de uma senhora muito bem falante e muito bem engomada, que visitava periodicamente a nossa casa, e com quem o meu avô tinha de repartir, numa percentagem significativa, os resultados da sua actividade de contrabandista. A “Mulher do Neves”, anunciava a minha avó quando ela batia à porta. Ela entrava, instalava-se com ar arrogante, bebia o chá, e passava a tarde a falar de percentagens com o meu avô que invariavelmente cedia às suas exigências.
Passada a infância, tenho continuado a conviver com a “Mulher do Neves” sob as mais diversas formas, mesmo aqui, na actividade editorial.
A minha relação com o José Cardoso Pires durou mais de trinta anos e foi ele que, infelizmente, acabou por a interromper.
Conhecemo-nos mais ou menos por altura do suplemento literário do Diário de Lisboa e do & Etc., ainda publicado como suplemento do Jornal do Fundão, dirigido pelo nosso querido amigo António Paulouro, recentemente falecido. O Zé e o Vítor Silva Tavares eram os dinamizadores destes dois projectos; eu, um critico literário ainda em fase de aprendizagem.
O Zé acabara de lançar O Delfim com alguma inovação promocional para a época – estaríamos para aí em 1968 – mas a nossa relação profissional só viria a iniciar-se mais tarde, em 1977, com a publicação do E Agora José?, quando eu, depois da Arcádia (onde o Zé também publicou) dirigia a Moraes Editores.
Trabalhámos estes anos todos, até à sua morte em 26 de Outubro de 1998, sem nunca termos assinado um contrato de edição. Um dia, quando ambos o constatámos – o contrato existia, tínhamo-lo certamente discutido e acertado, mas ambos nos esquecêramos de o assinar – resolvemos ir comemorar devidamente a singularidade e a confiança da nossa relação de trabalho. O Zé costumava dizer, aliás, que as maiores amizades se forjam na seriedade de uma relação de trabalho.
Fui vê-lo ao hospital de Santa Maria poucos dias antes de falecer. Pedi para que nos deixassem sós. E falei com ele quando certamente já não podia ouvir-me. Os médicos diziam: sabemos pouco a este respeito...; ignoramos se o cérebro destes doentes ainda lhes permite ouvir-nos. Mesmo assim resolvi tentar. E conversei com ele longamente, como fazíamos tantas vezes, falei-lhe de projectos em que estávamos a trabalhar, tentei pedir-lhe que tivesse forças. O Zé abria os olhos, umas vezes parecia concordar, outras discordar, com aquele ar refilão e lisboeta que lhe conhecia tão bem. Comovi-me evidentemente. Mas ainda hoje continuo a pensar, ao contrário dos médicos, que ele me conseguiu ouvir.
As relações de trabalho com os autores não são coisa fácil – talvez por isso alguns editores, como aqueles que já citei, fujam um pouco destas tarefas. Com o Zé isso era particularmente verdade. Ele trazia os livros todos na cabeça. Quer dizer: depois de os escrever, concebia integralmente a capa, o tipo e o corpo da letra em que os queria impressos, a mancha da página, as referências da contracapa, a promoção, o lançamento, etc. Era de um rigor e meticulosidade impressionantes. Fazia desenhos do que queria e como queria, montava em folhas de papel cuidadosamente dobradas o aspecto do caderno inicial, a ficha técnica, a dedicatória, a altura exacta em que deveriam iniciar-se os começos de capítulo.
Entrava no meu gabinete de trabalho manhã cedo – o Zé nunca sentiu necessidade de pedir para ser recebido – punha em cima da mesa todos os seus esquemas e papelinhos (muitos dos quais evidentemente conservo), trabalhávamos até à hora do almoço discutindo tudo com o maior rigor. Profissionalmente, seria a palavra exacta, e seria a palavra que certamente ele mais gostaria de utilizar.
Ao almoço, então, púnhamos a “escrita em dia”, falando de literatura e de política, fazendo projectos, comentando escritores que ele respeitava e outros que o irritavam. Estes almoços eram sempre especiais. Normalmente acabavam com a Edite a vir buscar-nos para o jantar, para o qual já seriam mais do que horas... Nunca consegui perceber como é que ela nos conseguia descobrir, não existindo ainda os malfadados telemóveis. Mas a verdade é que nos encontrava sempre.
Nessa altura eu atrevia-me pouco a comentar-lhe os textos ou os títulos, tão grande era a cerimónia e o respeito que lhe tinha. Depois, com o passar dos anos, fui ganhando coragem para assumir em pleno o meu trabalho de editor, como ainda hoje o entendo, o primeiro leitor, o cúmplice, aquele com quem o escritor não tem que ter cerimónias. E passei a atrever-me, a discutir, a comentar, a sugerir, acabando com ele a escrever-me: “deixo-o comprometido com esta escrita e rogo ao Porco Sujo que faça com que ela lhe agrade”.
É verdade, já me esquecia: levámos trinta anos a resmungar um com o outro sem que nunca nos chegássemos a tratar por tu.
Quando morreu, o Presidente da Câmara de Lisboa, a cidade que ele amava e tanto lhe deve, apressou-se a prometer uma rua digna do seu nome, a Biblioteca Publica da Freguesia de Alvalade também com o seu nome e, dentro desta, uma sala onde depositar os seus livros, os seus arquivos, os seus manuscritos, a sua correspondência, de modo a permitir um acesso fácil a todos quantos quisessem estudar a sua obra.
Não consigo perdoar que nenhuma dessas promessas tenha sido cumprida, agora que se cumprem cinco anos após a sua morte. E isto, apesar da disponibilidade da família para ceder todos os materiais e apoiar todas as iniciativas nesse sentido.
É verdadeiramente indesculpável.
Felizmente que a Câmara Municipal de Vila de Rei soube suprir esta falha, organizando recentemente um colóquio sobre a obra do escritor seu conterrâneo e dando o seu nome a uma das suas ruas.
Que fará Lisboa entretanto ?
Sendo José Cardoso Pires, depois de Cesário, um dos seus melhores cantores.
Pouco certamente. Muito pouco, sabendo-se o estado actual das coisas da cultura.

(Publicado no DNA de 14.12.2002)

VERGÍLIO FERREIRA

Enterrei hoje minha mulher – porque lhe chamo minha mulher? Enterrei-a eu próprio no fundo do quintal, debaixo da velha figueira. Levá-la para o cemitério, e como? Fica longe. Ela pedira-mo uma vez, inesperadamente, acordando-me a meio da noite. Queria que a enterrasse junto ao muro que dá para o caminho, porque se vê daí a casa dela. Habituara-se a olhar para aquele sítio depois que ficou só. E pensava: “verei dali a janela do meu quarto”. Mas teria de transportá-la para lá. Não tenho forças e cai neve. A quantos estamos? É Inverno, Dezembro, talvez, ou Janeiro.


Assim começa aquele que é, a meu ver, um dos mais enigmáticos e fascinantes romances da literatura portuguesa contemporânea: Alegria Breve, de Vergílio Ferreira, publicado em 1965, data em que as nossas relações foram estreitas e amigáveis.
Eu era um jovem candidato a escritor, bastante influenciado pela sua escrita e pelas suas ideias sobre a arte e a literatura; Vergílio gostava de abrir as asas do capote e de ter debaixo delas o que chamava de “os seus discípulos” que, por essa altura, eram eu e o Almeida Faria, a quem ele havia prefaciado o romance Rumor Branco, um acontecimento literário juvenil nesse inicio dos anos sessenta, prémio revelação de romance (1962) da então Sociedade Portuguesa de Escritores.
Como nessa altura ainda não havia computadores nem e-mails, trocávamos longas cartas manuscritas em que Vergílio, pacientemente, nos ia chamando a atenção para o trabalho sobre a escrita, nos ia ensinando o rigor, a seriedade e a disciplina, ao mesmo tempo que nos recomendava a leitura de alguns textos fundamentais e nos transmitia o seu amor pela literatura e a paixão pelas ideias.
Além de escritor era então professor no Liceu Camões, depois de o ter sido em Évora, onde escreveu Aparição.
Nunca foi meu professor e disso tenho desgosto, embora com surpresa de ambos lhe tenha caído nas mãos, como externo, no meu exame do então 7º ano do liceu. Lembro-me que falámos de Pessoa, Raul Brandão e Eça de Queiroz, durante um exame que durou mais do que seria normal.
Vergílio não era um homem mundano, muito antes pelo contrário, evitava as festas e as apresentações literárias, apreciava a leitura e o trabalho da escrita no recato da sua casa. Era para lá que me convidava por diversas vezes para podermos conversar tranquilamente, durante a tarde, num ambiente de semi-obscuridade que não esqueci, rodeados pelos seus livros. Ou em Fontanelas, onde às vezes reunia no verão os seus amigos, que ia buscar e levar, num velho Volkswagen, à estação dos comboios de Sintra. Foi através dele que pude conhecer Eduardo Lourenço, António Ramos Rosa, Fernando Namora, o pintor Cruzeiro Seixas e muitos outros.
Alguns anos mais tarde, já durante o período aceso da revolução de 25 de Abril, fui seu editor na Arcádia, durante alguns anos, até à extinção desta editora e à sua saída para a Bertrand.
Vergílio vinha pelo meio tarde, às vezes acompanhado por Cesariny, Natália ou Cruzeiro Seixas, sentava-se a conversar, distraído, como se o tempo não fosse tempo, como se eu não tivesse trabalho para fazer, como se todos em volta tivéssemos que parar para lhe dar atenção. Era o período aceso da revolução, setenta e cinco, talvez. Discutia-se política, os boatos constantes, as ameaças da “reacção”, os golpes e contra-golpes ou, no que o preocupava especialmente, as “pressões centralistas do PC”.
Entregou-me, por essa altura, um romance que, no conjunto da sua obra, nunca apreciei especialmente, “Rápida, a Sombra”, 1975, onde creio que ajustou comigo algumas contas antigas através do retrato de um crítico literário (Túlio, que era o nome do meu pai), “um patife que eu trouxe ao colo e depois me cuspiu”, “…que me imitou tudo. Até a letra.”.
Isto porque entretanto, atrevidamente, eu havia “desancado” com alguma violência o seu Post-Scriptum Sobre a Revolução Estudantil de Maio de 1968, incluído como posfácio à edição de Invocação ao Meu Corpo (1969), texto esse em que Vergílio considerava, ironicamente, que eu praticara “a morte do Pai”, invocando-me a propósito, por várias vezes, a célebre frase de Lèon Chéstov, “os jovens matam e comem os velhos”.
Tenho uma especial recordação dessas tardes acesas na Arcádia, em que autor e editor discutiam, esquecidos, os problemas da democracia que começávamos a viver. Com ele a discussão nunca era fácil, antes exigente e rigorosa. Para além de, na altura, não estarmos em posições coincidentes, Vergílio já tinha tudo pensado, a sua cabeça era uma máquina de pensar, as suas ideias iam buscar, lá atrás, as raízes culturais, a enorme informação, as leituras em nada desatentas. Tinha explicações para tudo e tudo nele estava pensado até ao último argumento.
Vergílio não era o que os editores chamam um autor difícil. Os seus textos eram minuciosamente revistos por si próprio antes da entrega ao editor, emendados até à exaustão na sua letra minúscula, sempre com a mesma caneta de tinta permanente e em cor preta. Durante as provas poucas emendas fazia, tanto quanto me recordo, a não ser as das “gralhas” com que deveras se irritava.
Já comigo na Dom Quixote continuou a procurar-me, manifestando por diversas vezes a sua vontade de se juntar ao trabalho que eu fazia com os restantes escritores da editora. Mas a Dom Quixote, nessa altura, não teve condições para dar resposta ao trabalho que ele merecia.
Morreu uma tarde, em 1996, pouco depois de ter completado 80 anos, enquanto escrevia, deixando a sua habitual caneta de tinta permanente cair sobre um texto inacabado. Escrevendo, escrevendo sempre.
Não podia ter sido de outro modo.
Nos últimos anos havia surpreendido de novo toda a gente com a insuportável beleza e mestria dos seus últimos romances, nomeadamente Para Sempre, Até ao Fim e Cartas a Sandra, este ultimo, premonitoriamente, terminando a meio de uma frase, a meio de uma palavra, tal como a vida lhe haveria de fazer a ele.
A sua obra singular, o romance, o ensaio, o diário e os testemunhos, à medida que o tempo passa, agiganta-se em toda a sua monumentalidade. Vergílio não foi um escritor amado pelos seus pares, não foi sequer um autor muito traduzido para outras línguas e só já em plena democracia alguns críticos de uma geração mais nova deram a atenção devida à sua obra. Mas essa obra aí está, lutando contra tudo o que a silenciava, impondo-se como um dos momentos mais altos da literatura portuguesa do século vinte.

(Publicado no DNA de 05.04.2003)



 Nelson de Matos
 Lisboa - Portugal
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